Quantificação do TSH e dos Hormônios Tireoidianos na Prática Clínica
Por: Grupo Analic - Publicado em: 12 de janeiro de 2026
Embora estejam entre os testes laboratoriais mais solicitados, inclusive por não especialistas em endocrinologia, a aplicação e a interpretação correta da quantificação do TSH e dos hormônios tireoidianos (HT) ainda gera dúvidas. Pensando nisso a Associação Americana de Tireoide (ATA) publicou uma revisão em 2023 destinada a melhorar a utilização destes testes por parte dos clínicos. Passamos a destacar algumas das principais recomendações do artigo:
Embora a maioria quase absoluta dos laboratórios utilizem metodologias de imunoensaios quimioluminescentes para a quantificação do TSH e dos HTs, resultados obtidos em plataformas de diferentes fabricantes podem diferir em valores absolutos e requerem valores de referência método-específicos para a correta interpretação. No mundo ideal um resultado de exame deveria ser comparável a outro, independentemente do local aonde fosse realizado. No mundo real, contudo, a situação é outra. Em 2017 a Federação Internacional de Química Clínica (IFCC) documentou o status da comparabilidade dos exames de TSH e T4 livre de 15 fabricantes distintos, demonstrando que, dependendo do caso, diferenças de até 50% nos resultados destes parâmetros poderiam ser encontrados na prática. É também por este motivo que os laboratórios devem explicitar claramente em seus laudos qual o fabricante de seus reagentes e quando houver eventual troca de metodologia.
Ao fazer a comparação do resultado de seu paciente com o intervalo de referência o clínico deve lembrar que estes limites representam tipicamente o comportamento deste parâmetro em 95% de uma população de referência sem problemas de tireoide. Importante levar em conta também que a variação intraindividual do TSH e dos HTs é menor que a variação na população, ou seja, acompanhara eventual oscilação dos valores anteriores do paciente é mais importante do que a comparação com os intervalos de referência.
O TSH é o mais sensível marcador do status da tireoide, pois a relação entre ele e o T4 livre é log-linear (pequenas mudanças do T4 livre causam grandes mudanças no TSH). Entretanto, o clínico deve estar atento para as situações em que o eixo hipotálamo/hipófise não esteja intacto. Nesses casos o TSH não irá refletir a função da tireoide. Importante também lembrar que após uma alteração aguda (mudança de dose na reposição, tratamento com iodo radioativo, por exemplo) os níveis de TSH podem levar semanas ou meses para novamente voltarem a ser um reflexo fidedigno da função da glândula.
O T4 é o HT preferencial, pois é o principal hormônio produzido e secretado exclusivamente pela tireoide. 80% do T3 circulante é originado fora da glândula, pela conversão periférica do T4, sendo, portanto, influenciado por várias situações fisiopatológicas não tireoidianas. Ambos circulam ligados a proteínas transportadoras (TBG, albumina e transtirretina) e a fração livre é considerada a expressão mais fidedigna da função hormonal, visto que é a forma ativa. No caso do T4 livre é amplamente reconhecida a sua superioridade em relação ao T4 total, mas essa realidade ainda não se aplica ao T3.
Devido a dificuldades analíticas, a medida da fração livre do T3 ainda não é superior ao T3 total, sendo esta mais reprodutível e precisa. A quantificação do T3 total tem pouco valor no hipotireoidismo, mas é útil nos casos de TSH suprimido com T4 livre normal, visto que no hipertireoidismo o T3 aumenta antes do que o T4, podendo esclarecer o caso. Um valor de T3 total baixo é achado frequente na doença não tireoidiana, podendo esclarecer um caso em que o TSH baixo não represente hipertireoidismo e sim um reflexo de doenças em outros órgãos.
Ref.: Van Uytfanghe K, et al. Thyroid Stimulating Hormone and Thyroid Hormones (Triiodothyronine and Thyroxine): An American Thyroid Association-Commissioned Review of Current Clinical and Laboratory Status. Thyroid. 2023
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